Medicina Tradicional Chinesa. O que é? E o que trata?

A Medicina Chinesa tem como base o conceito filosófico de integridade e unidade do todo – a unidade do organismo humano em si e a unidade maior do ser humano com a natureza. Vivemos na natureza, ela representa a condição vital para nossa sobrevivência. Assim, somos influenciados direta ou indiretamente por seus movimentos e mudanças. A qualidade desta relação que estabelecemos determina nosso grau de harmonia e saúde.

A Medicina Chinesa tem vindo a merecer a confiança de cada vez mais pessoas e instituições, na sequência das provas dadas relativamente à sua eficácia no tratamento dos mais variados tipos de doenças, desde o alívio da dor local até às doenças internas, de maior complexidade.

De onde vem?

A Medicina Chinesa nasce do conhecimento adquirido pela experiência empírica dos povos que viviam na região da actual China. Aliado ao conhecimento prático que ia sendo adquirido, estava a capacidade de observação do ser humano e do mundo envolvente de forma atenta e consciente. Isso permitiu aos médicos, filósofos e estudiosos compreender melhor o corpo e o funcionamento do universo.

Compreendendo que o ser humano está integrado no meio envolvente e que no corpo humano surgem alterações consoante o clima, estações do ano e horas do dia, os conceitos filosóficos chineses sobre o universo foram integrados na medicina. Daí advêm os conceitos de Taiji, Yin e Yang e cinco elementos/movimentos (madeira, fogo, terra, metal e água). Destes conceitos, os mais falados na literatura corrente são os de Yin e Yang.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE
A Organização Mundial de Saúde categoriza a acupuntura como uma área da medicina tradicional e refere várias patologias nas quais a acupunctura prova ter tratamento eficaz.

TÉCNICAS DE TRATAMENTO

A Medicina Chinesa engloba técnicas de tratamento como a Acupunctura, a Fitoterapia, a Massagem Chinesa , Correcções Osteo-articulares (Osteopatia Chinesa), Nutrição e Dietética e Exercícios terapêuticos. Existem também outras técnicas que consideramos aqui como sub-técnicas da Acupuntura. São elas a Ventosaterapia, a Moxibustão, o Gua Sha, entre outras técnicas.

ACUPUNTURA

A Acupuntura é um método terapêutico que utiliza agulhas para a estimulação de pontos ou áreas do corpo com o objectivo de restabelecer o equilíbrio corporal.

As agulhas são grossas ou finas?
As agulhas de acupunctura são finas, com uma espessura de aproximadamente dois fios de cabelo. No entanto existem muitos tamanhos e espessuras de agulhas, mas são bem mais finas que as agulhas comummente usadas em seringas. E a sensação acupuntural não é nada semelhante à das agulhas que se usam nos hospitais.

Como funciona a acupunctura?

PERSPECTIVA CHINESA → OS MERIDIANOS
Os meridianos são canais por onde circula sangue, líquidos e por onde flui a energia do corpo. Esses canais comunicam entre si, afectam-se mutuamente e interligam o corpo num sistema de rede. Conectam os órgãos, conectando o alto e o baixo e as extremidades com o interior. Poderíamos considerar o sistema de meridianos, de uma forma simplificada, como o sistema circulatório sanguíneo, linfático, o sistema nervoso, etc. Com as agulhas de acupunctura consegue-se influenciar a circulação de energia em cada canal. É assim possível, afectar a rede, isto é, o corpo, e restabelecer a saúde.

PERSPECTIVA OCIDENTAL
Existem várias teorias que explicam e comprovam a atuação e efeito da acupuntura. No caso específico da dor, quando aplicadas agulhas no local, a inserção da agulha gera um efeito mecânico de libertação dos tecidos que se encontram com aderências e contraturas. Para além disso, existe uma libertação hormonal que ocorre com a inserção das agulhas que, juntamente com o estímulo do sistema nervoso, induz o corpo a desenvolver acções anti-inflamatórias, relaxantes e os mecanismos de cura.

Meridianos – Um sistema de rede
Para compreender este sistema de uma forma mais concreta, analise o seguinte:

Muitas vezes, quando tem um problema de saúde, seja uma infecção ou uma dor, o problema começa num local mas se não o tratar a tempo vai se espalhando ou mudando de sítio. Por que razão o problema afecta ou afectou o local X e não o local Y do corpo? Exactamente porque vai seguindo os trajectos dos meridianos.

Quando compreendemos a forma como os meridianos se influenciam, conseguimos prevenir as doenças de se transmitirem a outras partes do corpo, tornando mais fácil resolver o problema de saúde.

E se tiver medo de agulhas?
Existem sempre soluções! No caso do paciente ter medo ou algum trauma com agulhas, existem sempre outras abordagens terapêuticas. Estas terapêuticas incluem a Massagem Tui Na nos pontos ou locais pretendidos, a moxibustão, a aplicação de ímans e ervas nos pontos de acupunctura. Pode ainda ser integrada a Fitoterapia Chinesa através da aplicação externa ou por via oral.

MÉTODOS DE DIAGNÓSTICO

Na Medicina Chinesa são usados métodos de diagnóstico próprios, que consistem na observação, palpação, olfação, auscultação e interrogação.

PALPAÇÃO
Este método de diagnóstico inclui a palpação do pulso, do abdómen, de pontos de acupunctura, de diferentes áreas do corpo e a palpação dos meridianos.

OBSERVAÇÃO
Na observação incluímos a observação da língua, da face, do estado da pele, pêlo, cabelo, dentes, etc.

INTERROGAÇÃO
Por último, mas não menos importante, falemos sobre o método da interrogação/questionamento. A Medicina Chinesa considera que os órgãos não possuem apenas a função fisiológica que todos conhecemos, mas também funções energéticas. Por exemplo, o órgão X é responsável pela subida da energia no corpo, o órgão Y responsável pela descida, etc.

MASSAGEM TERAPÊUTICA

A massagem chinesa designa-se por Tui Na, que literalmente significa “empurrar” e “agarrar”. A massagem segue os princípios da Medicina Chinesa: as teorias de Yin e Yang, dos meridianos, etc. Pode ser aplicada com fim terapêutico, tratando patologias musculares e tendinosas, tais como contraturas e dores musculares, tendinites, etc. Pode também ser utilizada numa vertente de relaxamento ou numa vertente mais direccionada para a estética, tendo nesta área também uma grande aplicabilidade (pós-operatório, cicatrizes, emagrecimento, etc.).

CORREÇÕES OSTEO-ARTICULARES

Zheng Gu significa “correcção dos ossos”. É o que no ocidente chamamos de Osteopatia Chinesa. É utilizada na correção das estruturas articulares e ósseas, com o objetivo de as alinhar. Esta correção das estruturas corporais é fundamental para que o corpo fique equilibrado. É importante que as estruturas corporais estejam alinhadas e os órgãos internos estejam na sua posição correta. Quando uma estrutura óssea ou tendinosa se encontra deslocada provoca dor, desconforto e inflamação do local. É assim, de extrema importância corrigir esta situação e assegurar que todas as estruturas estão na posição correcta.

FITOTERAPIA

A Fitoterapia Chinesa é extremamente rica e desenvolvida. Os medicamentos estão catalogados consoante a sua categoria: tranquilizante, tonificante, purgante, anti-inflamatório, antibiótico, expectorante, etc. Estão também classificados consoante a sua natureza, sabor, meridianos onde penetram/agem. Estão bem definidas as dosagens recomendadas, as acções e as indicações de cada ingrediente.

Dentro da sua natureza, podemos encontrar os medicamentos pesados (minerais e raízes). Estes têm uma tendência a conduzir o fluxo de energia para baixo. São bons, por exemplo, no caso da hipertensão, ansiedade, ataques de pânico e para o refluxo esofágico. Os medicamentos leves têm uma tendência a ascender. Normalmente são flores e folhas e promovem, por exemplo, a sudorese (transpiração). São úteis em casos de resfriados e problemas respiratórios.

O sabor de cada medicamento dá informação, não só a respeito dos meridianos com os quais este tem mais acção, mas também com os efeitos que irá gerar no corpo.

AÇÃO DOS DIFERENTES SABORES

  • O sabor doce tonifica, dá energia, gera líquidos orgânicos e acalma os espasmos, sendo útil nos casos de fraqueza, cansaço, caimbras e dores.
  • O sabor amargo gera uma actividade descendente no corpo. Pode purgar, promover a diurese, desinflamar e eliminar o ambiente que permite o aparecimento de bactérias. É utilizado em casos de infecções, colesterol, hipertensão, etc.
  • O sabor picante activa a circulação e desbloqueia os meridianos, sendo indicado nos casos de dores, resfriados e bloqueios.
  • O sabor salgado amacia sólidos. É utilizado quando há a presença de massas sólidas no corpo, como é o caso de tumores, quistos e fezes secas.
  • O sabor ácido é adstringente, sendo essencialmente usado para adstringir o suor excessivo, a diarreia e a tosse.
  • As matérias com sabor insípido, ou seja, com um sabor suave, são utilizadas maioritariamente para promover a diurese e eliminar líquidos.

PORQUE CHAMAMOS “MEDICAMENTO” E NÃO “PLANTA”?
Neste artigo, esta área da Medicina Chinesa está designada por Fitoterapia Chinesa. Refere-se ao uso de plantas, devido à familiaridade com o nome no ocidente. No entanto, o termo mais correcto seria Farmacopeia Chinesa, denominando-se cada ingrediente por matéria médica ou medicamento. A farmacopeia chinesa inclui, além das plantas, alguns minerais e matérias de origem animal.

VENTOSATERAPIA

A ventosaterapia, cupping ou vacuoterapia consiste na aplicação de ventosas, actualmente com a aparência de copo, em diversas regiões do corpo. A sucção provocada pelas ventosas gera relaxamento muscular, melhora a circulação e estimula a regeneração dos tecidos lesados (músculos, tendões, etc.). Normalmente, a sucção é criada através do aquecimento do interior da ventosa. As ventosas mais modernas, de acrílico, têm um sistema de extracção manual do ar.

DESDE AS PRIMEIRAS VENTOSAS
As primeiras ventosas eram feitas de cornos de animais, passando posteriormente a ser feitas de bambu, mais tarde de porcelana e depois vidro. Hoje em dia existem também ventosas de acrílico. Em Portugal, as ventosas vêm a ser utilizadas há imensos anos pelo nosso povo, especialmente no tratamento de dores e patologias respiratórias. Provavelmente foi um conhecimento trazido pelos jesuítas após o contacto com o povo asiático. Mais recentemente, nos Jogos Olímpicos de 2016, no Brasil, a equipa americana de natação apareceu com as normais marcas após a aplicação de ventosas, trazendo a atenção de muitos para esta técnica tão antiga e eficaz.

AS VENTOSAS DEIXAM MARCA? A APLICAÇÃO DÓI?
É comum o surgimento de marcas após a aplicação de ventosas, devido ao vácuo (à sucção). As marcas são redondas, com o formato da ventosa. A cor varia consoante a gravidade da patologia, ou seja, patologias mais severas irão deixar uma marca mais escura. No entanto, apesar das marcas, trata-se de um processo praticamente indolor. As marcas deixadas pelas ventosas fazem parte do processo de cura. O corpo vai activar os mecanismos necessários para recuperar e desinflamar o local afetado.

GUA SHA
O Gua Sha consiste na raspagem da pele com um instrumento próprio para o efeito, sendo utilizada por vezes uma colher chinesa – a sensação é muito agradável. Tem como efeito baixar a temperatura corporal (baixar a febre) e desinflamar os locais onde é aplicado. Permite ainda fazer a manutenção da textura e suavidade da pele. Ao raspar a pele várias vezes desencadeia-se um processo semelhante ao das ventosas. Ativa-se a circulação de sangue, líquidos e energia e o processo anti-inflamatório natural do corpo.

No ocidente, existia uma técnica semelhante, em que os médicos esfregavam o peito dos doentes com patologias respiratórias até haver uma marca.

AS MARCAS DEIXADAS PELA APLICAÇÃO DE VENTOSAS E GUASHA DESPARECEM APÓS QUANTO TEMPO?
Estas marcas desaparecem ao fim de 2 a 10 dias, dependendo da constituição do paciente e da gravidade do problema (como referido acima, consoante o problema, a coloração da pele também ficará diferente). Se o paciente estiver forte, recupera mais rapidamente. Não é necessário aplicar nada no local pois o corpo recuperará sozinho.

MOXIBUSTÃO

A Moxibustão, ou moxa, é o processo que se caracteriza pela combustão de uma erva denominada artemísia. A artemísia (Ài Yè – 艾叶) é moída até se obter uma espécie de “lã”, ou moída para ser enrolada em forma de charuto.

Com a “lã” normalmente fazem-se uns cones que são aplicados directamente na pele (moxibustão directa), queimando-se até que o paciente sinta calor. Nessa altura retira-se o cone e aplica-se outro, sem queimar a pele. Outra forma de usar a lã é aplicá-la numa caixa própria para o efeito, que garante todas as condições de segurança para que não haja acidentes. O charuto de artemísia é queimado e aproximado da área a ser tratada, sem tocar na pele. Denomina-se por moxibustão indirecta.

PARA QUE SERVE A MOXIBUSTÃO?
Através da queima da artemísia (moxibustão) os pontos de acupunctura são aquecidos e estimulados. Gera-se a ativação do fluxo de energia e sangue, desbloqueiam-se os meridianos e ativam-se os órgãos a que estes estão associados. Como ativa o fluxo de energia e sangue, também é utilizada para o alívio da dor, uma vez que relaxa os tecidos e desencadeia um processo anti-inflamatório.

Existe ainda a aplicação de outras ervas nos pontos de acupunctura (ou áreas do corpo) sem combustão. Neste caso, o paciente pode levar consigo estas ervas aplicadas, como é o caso das sementes de mostarda comummente usadas em auriculoterapia. Através dos fortes óleos que essas plantas contêm, os pontos são estimulados e o seu efeito depende das plantas aplicadas.

Tanto a queima da artemísia, como a aplicação direta de ervas em áreas do corpo, são aplicados também na prevenção de doenças. Este processo realiza-se em alturas do ano específicas, em que o corpo está mais necessitado ou receptivo a este tipo de tratamento. Através deste método podem ser prevenidas doenças respiratórias, cardíacas, digestivas, renais, ósseas, falta de energia, etc.

DIETÉTICA E NUTRIÇÃO

Pode ser considerada como a primeira abordagem que o médico deve usar.

Um grande mestre da Medicina Chinesa, Sun Simiao, dizia: “As pessoas que praticam medicina devem primeiro entender a fonte da desordem e saber o que foi violado, e com isso usar o alimento para curar. Se o alimento não curar, use os medicamentos.”

Na Medicina Chinesa, os alimentos estão catalogados da mesma forma que os medicamentos. Desta forma, o médico de Medicina Chinesa deve conhecer os sabores, natureza e propriedades dos alimentos para fazer uma prescrição correcta e promover a recuperação da saúde do paciente.

Aliada à alimentação, deve ainda ser cuidado o estilo de vida. Estas duas áreas são fundamentais para recuperar a saúde e evitar futuras doenças.

EXERCÍCIOS TERAPÊUTICOS/ QIGONG

O Qigong/Chikung é a arte que permite cultivar a energia (Qì). Através de exercícios físicos, respiratórios e mentais a energia do corpo é conduzida e ativada, desbloqueando e equilibrando o fluxo nos meridianos. É muito útil para manter um estado de saúde física e mental equilibrados. Podem ser ensinados exercícios terapêuticos aos pacientes, potencializando o efeito do tratamento de acupunctura, massagem ou fitoterapia. Por exemplo, existem exercícios que permitem alongar cada um dos meridianos, relaxar grupos musculares específicos, acalmar, excitar, aumentar a energia e estimular certos pontos de acupunctura.

OS ESTUDOS MODERNOS INTEGRADOS NA MEDICINA CHINESA

CRANIOACUPUNCTURA
Existem formas novas de fazer acupunctura, como é o caso da acupunctura no couro cabeludo (cranioacupunctura). Esta forma de acupuntura combina os princípios tradicionais da acupunctura com o conhecimento anatómico e neurológico do córtex cerebral. É muito utilizada no tratamento de patologias neurológicas, nas sequelas de AVC (acidente vascular cerebral), no controlo da dor e em patologias do foro emocional e psiquiátrico. No entanto, como está aliada às teorias chinesas, foi criado um microssistema de acupunctura, permitindo agir praticamente em qualquer patologia, em qualquer parte do corpo, seguindo as teorias da Medicina Chinesa.

ELETROACUPUNTURA
A eletroacupuntura consiste na aplicação de uma corrente eléctrica nas agulhas de acupuntura, de modo a estimular (com mais intensidade) os pontos dos meridianos. Durante o tratamento sente-se um ligeiro formigueiro nos locais que estão a ser estimulados. Em qualquer tratamento, a intensidade da corrente é sempre ajustável de forma a que o paciente se sinta confortável.

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